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O Mito da Verdade da Informação
Posted by Alex
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23:59
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Reflexões
A “verdade” do olhar X a “verdade” do objeto
Certa vez li a seguinte frase: “Não existe 100% de objetividade fora das ciências exatas." Se analisarmos de forma bem superficial tal afirmação, é correto dizer que 2 + 2 são 4, uma objetividade que não é tão fácil de ser creditada quando se fala: “os álbuns da banda Calypso são um exemplo de degradação da música brasileira”. Um exemplo extremo, mas que nos leva a uma reflexão: É certo afirmar a existência de uma forma completamente objetiva e imparcial de veicular informações nas mídias?
Um dos fatores que levam à subjetividade, muitas vezes, é a falta de contato do relator com a “realidade verdadeira” dos fatos. Grande parte do mundo que conhecemos nos é dado por uma falsa vivência. É exatamente isso que Walter Salles conclui no texto Barranquilla e 50 anos de solidão. Estar na cidade que inspirou a Macondo de Cem Anos de Solidão trouxe a ele uma visão única do que conhecia apenas em seu imaginário de leitor. Para conhecer “verdadeiramente” algo, é preciso ir além do simulacro que vivemos pela internet e pela TV.
E isso se aplica sobretudo quando se trata de relatar um fato. Mais do que em qualquer outra situação, aí se faz absolutamente necessário conhecer na “realidade” e não apenas na “virtualidade” o objeto abordado. No entanto, mesmo munidos de um conhecimento empírico, é praticamente impossível garantir uma isenção total da visão do relator na composição de seu relato. Mesmo apurando, investigando, checando, há uma seleção natural das informações, que começa com o simples direcionamento do olhar do redator do texto. Posteriormente, tais informações ainda passarão pelas mãos do editor, que as formatará. Todo esse processo garante a inexistência de uma única verdade absoluta sobre um fato.
A verdade do objeto está lá, mas ela é como uma vasta paisagem infinita, enquanto o relato sobre ela, a verdade do olhar, é apenas o enquadramento de uma fotografia, que tiramos ao fazermos o texto. E, é esta imagem dos fatos que imprimimos em nossas palavras e levamos aos nossos leitores. Eles terão acesso somente ao que foi enquadrado na foto e não a tudo aquilo que ficou de fora do quadro. Uma verdade parcial, ditada pela tendência de um olhar. Poderia isso ser considerado objetivo? Ao meu ver sim e não... Embora exista uma objetividade em transmitir a verdade apurada da forma mais imparcial e fiel possível, a simples seleção do foco é algo subjetivo, mesmo quando meticulosamente calculada. Cada jornalista, com base em seu repertório, definirá seu próprio enquadramento e apresentará sua foto de um angulo diferente de seus colegas.
Ao estabelecermos uma visão crítica em relação às mídias, é importante termos em mente a importância desse repertório do “criador” que se faz presente, de alguma forma, no produto de sua criação. Aliás, é justamente o contato com visões diversas sobre uma mesma “verdade”, que nos leva mais próximos da imagem completa da paisagem. Acredito que a leitura de diferentes impressões sobre um mesmo tema, nos ajuda a formar nosso próprio repertório. E o que são as críticas senão reflexos do repertório que construímos e acumulamos sobre determinado assunto, durante toda a vida... E, talvez, essa seja a coisa mais objetiva que se pode afirmar sobre o ato de criticar.
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